O Uruguai foi bravo, bravíssimo

A Holanda venceu o Uruguai por 3 x 2 em mais uma grande partida desta Copa do Mundo. Enganou-se quem imaginou que os charruas seriam presa fácil para a seleção que eliminou o Brasil.

A Holanda saiu logo marcando num chute absolutamente incrível de Van Bronckhorst se fora da área. Logo, Forlán empatou aos 27 do primeiro tempo, dando início a um surpreendente domínio uruguaio, que esteve por virar o marcador algumas vezes. Porém, a sorte de Sneijder voltou a influir no resultado. Aos 25 do segundo tempo, quando o jogo parecia seguro para os uruguaios, Sneijder chutou da entrada da área, a bola desviou na zaga e foi morrer nas redes do goleiro Muslera. Os uruguaios reclamaram de um impedimento de Van Persie, que não desviou a trajetória da bola, mas fez o movimento em direção à bola – o que árbitro Ravshan Irmatov não interpretou como participação direta no lance.

Três minutos depois, Robben fez o terceiro de cabeça. Porém, mesmo sem Diego Forlán, que saíra lesionado, o Uruguai sufocou a Holanda, conseguindo um gol nos descontos através de Maxi Pereira.

Um jogaço.

Uruguai 2 x 3 Holanda

Gols: Uruguai: Forlán, aos 40min do 1º tempo, e Maxi Pereira, aos 46min do 2º tempo. Holanda: Van Bronckhorst, aos 17min do 1º tempo; Sneijder aos 25min, e Robben, aos 28min do 2º tempo.

Uruguai: Muslera; Maxi Pereira, Victorino, Godín e Cáceres; Diego Pérez, Arévalo, Gargano e Álvaro Pereira (Loco Abreu); Cavani e Forlán (Sebastián Fernández). Técnico: Oscar Tabárez

Holanda: Stekelenburg; Boulahrouz, Heitinga, Mathijsen e Van Bronckhorst; Van Bommel e De Zeeuw (Van der Vaart); Robben (Elia), Sneijder e Kuyt; Van Persie. Técnico: Bert van Marwijk

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E o Vasco levou a Copa da Hora

A torcida do Avaí já comemorava o título, mas um gol de Roberson nos descontos deu a Copa da Hora ao Vasco da Gama pelo saldo de gols. Na preliminar, o time vascaíno, que terminou com os mesmos seis pontos do Avaí, bateu o Coritiba por 3 a 2 e levou a Copa.

Se o torneio deu ritmo de jogo aos titulares do Grêmio, também serviu para que uma nuvem de desconfiança pousasse no Olímpico. Afinal, o time foi facilmente vencido pelo Coritiba e Avaí, equipes que não estão dentre as melhores do país.

O diretor de futebol Luiz Onofre Meira disse que a má atuação deu-se pela descaracterização da equipe:

— O Grêmio foi mal porque está descaracterizado. O time mostrou que não estava entrosado, não conseguiu encaixar. E também houve falhar individuais — explicou Meira.

E, com efeito, o Grêmio entrou com um quarteto ofensivo que apenas deve ter treinado junto e olhe lá: Leandro, Roberson, Bergson e André Lima. O time:

Marcelo Grohe; Edilson (Saimon), Mário Fernandes, Rodrigo (Rafael Marques) e Neuton (Uendel); Adilson (Fábio Rochemback), William Magrão (Fernando), Leandro (Fábio Santos) e Roberson; Bergson e André Lima.
Técnico: Silas

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Inter folga enquanto Grêmio tenta título

Após ter perdido para o Coritiba e goleado o Vasco da Gama, o Grêmio enfrenta o Avaí na última rodada da Copa da Hora. Como os jogos anteriores, este também faz parte de uma rodada dupla na Ressacada, em Florianopolis: o Grêmio joga às 21h30min, Vasco e Coritiba jogam antes, às 19h30min.

Todos os participantes do torneio chegam vivos à última rodada. O Grêmio está em segundo lugar pelo confronto direto com o Coritiba. Para ser campeão, o time gaúcho precisa vencer e torcer para que o Coritiba não faça o mesmo com o Vasco.

O Inter tem folga total no dia de hoje. As notícias do dia é que Fernando Carvalho não está acreditando na antecipação da janela de agosto — o que permitiria as inscrições de Renan, Tinga e Rafael Sóbis — e que Celso Roth desenhou o esquema tático demonstrado ontem em Rivera já pensando nas inclusões de Sóbis e Tinga na equipe. Não são notícias paradoxais mais também não são complementares, digamos.

No caso de a janela não ser antecipada, o Inter inscreveria Oscar, Marquinhos e Ronaldo Alves.

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Inter empata com Peñarol

Fazer um gol no Peñarol foi uma tarefa impossível para o Internacional. Mesmo nos pênaltis houve dificuldades. Sim, houve uma decisão por pênaltis para saber quem levaria a Taça Fronteira da Paz e o resultado foi de apenas 2 x 1. Apenas Leandro Damião e Oscar marcaram. As cobranças de Taison, Kléber e Andrezinho estiveram mais para o cômico.

Mas o que interessa é o fato do Inter já ter apresentado um time bem ao estilo Celso Roth: defensivamente seguro, ofensivamente ineficaz. O domínio colorado foi completo — a zaga jogou bem e os três volantes pegaram quase todas as “segundas bolas”. Fazer gol é que foi o problema. Apesar do esforço de D`Alessandro e Giuliano, estes não conseguiram fazer companhia ao sonolento Alecsandro.

O destaque foi Abbondanzieri. Ele confirmou sua fama de bom pegador de penalidades ao defender três cobranças uruguaias. A outra foi à lua.

Peñarol: Sosa; Albín, Guillermo Rodríguez, Darío Rodríguez (Alejandro González) e Alcoba; Marcelo Sosa, Román, Ramírez (Alonso) e Colazzo (Mastrangelo); Pacheco (Viera) e Palacio (Martinuccio).
Técnico: Manuel Keosseian.

Internacional: Pato Abbondanzieri; Nei (Bruno Silva), Bolívar, Índio (Fabiano Eller) e Kleber; Sandro, Guiñazu, Wilson Matias (Oscar), Giuliano (Taison) e DAlessandro (Andrezinho); Alecsandro (Leandro Damião).
Técnico: Celso Roth.

Arbitragem: Márcio Chagas da Silva, auxiliado por Marcelo Barison e João de Souza Júnior (trio gaúcho).
Cartões amarelos: Nei (I); Alcoba (P).
Pênaltis Inter: Leandro Damião e Bruno Silva converteram. Taison, Kleber e Andrezinho erraram.
Pênaltis Peñarol: Román marcou. Guillermo Rodríguez, Román, Alcoba e Alonso desperdiçaram.

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E o Grêmio levou o jogo a sério: 3 a 0 no Vasco

Para o segundo jogo da Copa da Hora, Silas alterou seu time. Mário Fernandes voltou para sua posição, a zaga, e Neuton, Douglas e Rochemback foram escalados. Saíram Hugo, Rodrigo, Fábio Santos e Maylson.

No primeiro tempo, o Grêmio promoveu uma massacre contra um atarantado Vasco. Aos 15 minutos, Jonas, nuim belo chute de fora da área, marcou o primeiro após boa jogada de Neuton e Borges. O Vasco tentou reagir, teve uma oportunidade com Granja, mas depois só deu Grêmio. Aos 33 minutos, Borges marcou após um chutaço de Edilson. A bola foi rebatida pelo goleiro Fernando Prass e o atacante só encostou para as redes. O terceiro saiu aos 41, novamente com Jonas.

GRÊMIO: Marcelo Grohe; Edilson (Saimon), Mário Fernandes, Rafael Marques e Neuton (Uendel); Adilson (Ferdinando), Fábio Rochemback, Douglas e Leandro (Fernando); Jonas (Roberson) e Borges (André Lima).
Técnico: Silas.

VASCO: Fernando Prass; Cesinha, Thiago Martinelli (Fernando) e Dedé; Élder Granja (Fagner), Romulo (Léo Gago), Rafael Carioca, Jeferson (Fumagalli) e Ramon; Jonathan (Allan) e Rafael Coelho (Rodrigo Pimpão).
Técnico: PC Gusmão.

Arbitragem: José Acácio da Rocha, auxiliado por Nadine Schramm Bastos e Josué Lamim.
Gols: Jonas, aos 15 minutos, Borges, aos 34, Jonas, 41 minutos do primeiro tempo.
Cartõs amarelos: Ferdinando, Douglas (Grêmio); Dedé, Léo Gago, Fernando (Vasco).

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Chances que não voltam

Por Vicente Fonseca, do Carta na Manga

Não entendo como as pessoas ainda se surpreendem que a Espanha tenha tido dificuldades em superar o Paraguai. A seleção de Gerardo Martino não apenas estava invicta nesta Copa como, além de eliminar a (bem ou mal) campeã Itália, fez uma campanha de Eliminatórias equiparada com a do Brasil, e muito superior à da Argentina, por exemplo.

Evidentemente que não daria para enfrentar de igual para igual. Mas o Paraguai, fiel à sua história em Copas, jogou fechado, marcando muito, e esperando a chance de dar o bote. Começou o jogo com postura surpreendente, marcando lá em cima. Mesmo quando a Espanha começou a se encontrar, raramente conseguia entrar na área guarani. A grande chance do primeiro tempo, inclusive, foi paraguaia – mais que uma chance, um gol mal anulado por mais uma desastrosa arbitragem nesta Copa do Mundo.

O segundo tempo foi marcado pelos dois pênaltis seguidos. A favor do Paraguai, muito bem marcado, mas pessimamente validado pelo guatemalteco do apito, já que vários espanhóis invadiram a área, o que deveria anular a defesa de Casillas, um monstro pegador de pênaltis de Copas como desde Goycoechea não se vê. A favor da Espanha, duvidoso, discutível. Bem anulado o gol de Alonso, mas, na segunda cobrança, Villar defende e faz novo pênalti, desta vez em Fabregas, não marcado. Tudo errado.

Fabregas, aliás, substituiu Fernando Torres, o goleador que se transformou de solução em problema espanhol nesta Copa. Colocou-se já Pedro, Llorente, Fabregas, qualquer um. Sempre que Torres sai, a Espanha melhora. No caso de hoje, ganhou robustez e qualidade no meio, em favor de um peso morto. Peso morto que pode derrotar a Alemanha na semifinal, como na Euro 2008, pois se trata de um dos melhores centroavantes do mundo. Mas que tem sido zero nesta Copa.

A Espanha passa na qualidade de seus jogadores, especialmente o meio-campo. Xavi fez ótima partida, Iniesta é sempre perigoso, e Villa, artilheiro da Copa, um demônio. Lá atrás, quando precisou, Casillas esteve presente. Mas o time pode e deveria jogar muito mais. Ao contrário de outras Copas, nesta a Fúria nunca goleou ou deu show no começo. Sempre foi de mediana para boa, sem dar espetáculo – mas desta vez chegou. Para enfrentar a Alemanha, será preciso muito mais futebol do que hoje ou qualquer outro jogo. Se a questão da tradição de derrotas não tem pesado contra os espanhóis em 2010, a questão da bola será implacável diante do melhor time do Mundial. A Espanha precisará de sua melhor atuação na história para chegar à final. Ao natural, cairá fora.

Já o Paraguai fez uma Copa interessante, talvez um pouco abaixo do que eu esperava, mas, em termos de resultados, excelente. A seleção guarani poderia ter um desempenho ofensivo mais de acordo com a capacidade de jogadores como Barrios, Santa Cruz, Valdez e Cardozo, mas novamente destacou-se por uma defesa sólida e firme. Hoje foi um time aguerrido, brioso, honrado, comovente. Ah, se aquela bola de Cardozo entrasse…

Em tempo:
- Só o Uruguai continua na Copa, o que não anula o bom desempenho da América do Sul, especialmente de seus times menos cotados. A final de Brasil x Argentina fica para a próxima. E apesar do mau começo, futebol europeu prova que sua “decadência”, sim, é que era uma farsa. Muito mais por alemães e holandeses que por espanhóis.

- Guatemala, Japão e Uzbequistão com árbitros em jogos de quartas-de-final de Copa do Mundo. É muita vontade de agradar federações. É muito risco de complicar o que não se pode.

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De 4 em 4, o tetra vem chegando

Por Vicente Fonseca, do Carta na Manga

Seguramente, a Alemanha nunca jogou tanto em toda sua imensa história de Copas do Mundo. Seguramente, nunca vi um time que jogasse tanto quanto esta Alemanha nos 20 anos em que acompanho futebol. Tente puxar pela memória: qual outra seleção na história das Copas conseguiu golear dois campeões do mundo numa mesma edição do torneio? Nenhum. Nem o Brasil, com Pelé e Garrincha, conseguiu isso. Só esta Alemanha.

Se desde a primeira rodada a equipe treinada por Joachim Löw vem dando pinta de que alcançará o tetracampeonato, é fato que o time cresce a cada jogo de mata-matas que disputa. E a passos largos, imensos. Simplificar a Alemanha como um time que se fecha bem e sai em contra-ataques perigosos é um erro grosseiro. Excetuando a lateral-esquerda, onde Boateng é apenas cumpridor, os alemães têm grandes jogadores em todas as posições. Não bastasse isso, Löw faz um excelente trabalho, organizando a equipe de modo tão perfeito que estas ótimas individualidades se sobressaiam ainda mais. Aí, fica difícil segurar.

Se a Inglaterra sucumbiu, a Argentina também não foi páreo. Ambas as eliminadas chegaram a jogar melhor que a Alemanha em parte das partidas, grandes times que são. Mas hoje ficou evidente a superioridade técnica (que eu desconfiava há horas) e tática da Alemanha sobre os hermanos. O time platino sempre foi bagunçado, a Copa inteira, mas tem jogadores excepcionais que podiam, num dia inspirado, fazer a diferença. Tem apenas um marcador no meio, Mascherano, que joga extremamente sobrecarregado. Não bastasse isso, a zaga sempre deu mostras de que iria vazar. Otamendi não tem condições de envergar a gloriosa camisa bicampeã do mundo. No meio, a linha alemã tomou conta do setor e impediu Di Maria e Maxi Rodríguez de participarem do jogo no primeiro tempo. Messi era obrigado a recuar muito para buscar jogo, o que lhe retirava poderio ofensivo.

A Alemanha abriu o placar logo de cara, mas faltou o contra-golpe na etapa inicial. Teve a iniciativa nos 20 minutos iniciais, mas os argentinos vieram para cima no ânimo e na qualidade individual de seus jogadores de frente, um resumo da Era Maradona no comando do selecionado. O encaixe do contra-golpe alemão, porém, era falho. Ainda que Müller fosse espetacular como de costume, Özil não jogava tudo o que sabia. Imagina se jogasse.

No segundo tempo, Di Maria e Maxi Rodríguez entraram no jogo, mas a segurança da retaguarda alemã era impressionante. A Argentina não fazia má partida, foi para cima, mas mostrava mais brios que organização. Porém, em vez do tão cantado contra-ataque, foi no toque de bola envolvente da Divisão Panzer que Klose ficou sozinho na linha do gol para ampliar. Dali em diante, ficou evidente o abismo tático que há entre os dois times. Foi um show, que terminou em 4, e poderia ter sido ainda maior.

Messi decepcionou por não ter marcado gols ou feito a diferença no primeiro jogo difícil de seu time, mas está longe de ter feito uma Copa ruim. Jogou mais que a maioria dos jogadores festejados (Kaká, Cristiano Ronaldo, Rooney) antes do Mundial. Mas ainda precisa provar que pode mais com a camisa albiceleste. Terá mais duas ou três Copas para isso, tempo suficiente para se recuperar do fiasco de hoje. Seu fracasso não deixa de ser também o de Maradona, que o protegeu sempre, como qualquer técnico, aliás, faria. Mas o fato é que a Argentina tem jogadores não superiores aos da Alemanha, e é inferior taticamente. Por isso sempre apostei na vitória germânica neste duelo. Os germânicos têm um grande técnico; os argentinos, um motivador.

Müller, que levou segundo cartão amarelo, fará falta na semifinal. Aos 20 anos, provou de novo ser um craque, um jogador decisivo. Fez um gol de oportunismo, sempre foi perigoso, criou no chão a jogada do segundo gol, que decidiu o jogo. A dupla de volantes Khedira e Schweinsteiger, que tão desconfiada chegou à África do Sul, é de longe a melhor da Copa. O primeiro desarma bem e não erra um passe. O segundo está entrando para a história como um dos grandes craques de sua seleção em todos os tempos, aqueles que trocaram de posição e seguiram jogando o fino (Beckenbauer, Matthäus e Sammer, notadamente): de meia-quase-ponta, virou um volante que marca, se desprende, dribla, lança, chuta a gol e dá ritmo ao time. Fez uma jogada sensacional no terceiro gol, o de Friedrich, destruindo a defesa argentina a dribles curtos e verticais. Friedrich, aliás, forma zaga muito segura e séria com Mertesacker. E se o discreto Boateng está de um lado, o excelente Lahm está do outro. Mais uma partida impecável.

A dupla de ataque, longe de ser brilhante, é decisiva – o que importa mais do que o brilho, muito mais. Podolski e Klose formam um daqueles “casais 20” de Mundiais. O centroavante já se iguala a Gerd Müller e está a dois gols de superar Ronaldo. Mais um recorde que esta inesquecível Alemanha pode quebrar.

A Alemanha pode até não ganhar a Copa, isto é do jogo. Mas hoje provou mais uma vez que é o melhor time, o mais preparado para vencê-la. Está um passo à frente da Holanda, a outra favorita. E fico muito feliz que um país que foi apressadamente dado como decadente para o futebol há cerca de 10 anos consiga formar um time deste nível. Claro, nem mesmo eles esperavam jogar tanto assim. Mas, incrivelmente, muitos ainda desdenham dos germânicos sempre antes de uma Copa do Mundo começar. E, em 2010, nem está sendo preciso invocar a história do futebol alemão para pedir o respeito que eles merecem.

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Capa do diário argentino Olé de hoje…

Atualização das 12h50: Alemanha 4 x 0 Argentina. A Argentina também verá as finais da Copa numa LCD. Sugiro uma 3D, aquela do Robinho…

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O dia que ganhamos com dois goleiros

Por Luís Felipe dos Santos, do Impedimento

E então, o árbitro deu uma falta que não existiu. Não lembro quem cobrou. O fato é que a bola foi para a área celeste. Muslera saiu mal. Sobrou para o ganês. Ele defendeu com o joelho. Adiyiah conseguiu o rebote e chutou para o gol. E Suárez defendeu. Suárez, o atacante defendeu. Pênalti para Gana. Classificação para o Uruguai.

Quando um jogador de linha, ainda mais um jogador importante como Suárez, defende com a mão uma bola na linha do gol no último minuto da prorrogação, ele simplesmente joga toda a sua fé na esperança. Se a bola passa, acabou a Copa. É preciso um último recurso, a última chance, a cartada final. É a morrer. A morir. É assim que Suárez foi ensinado a jogar, e por isso ele não teve dúvidas. Defendeu a bola. Saiu chorando. Eliminou o Uruguai da Copa? Classificou o Uruguai às semifinais.

Isso porque ele deu uma última chance à mística. Schiaffino sorriu. Obdulio vibrou. Cea, Nasazzi, Abdón Porte. Todos pararam em frente a Asamoah Gyan, um dos mais brilhantes atacantes dessa Copa, e disseram: não. Estava diante de Muslera Gyan, as vuvuzelas, a África inteira, o mundo e todo o destino possível. Toda a lógica. Pênalti aos 15 minutos da prorrogação. Acabou. Acabou?

Trave.

E Suárez apareceu vibrando, sozinho. Sem abraçar ninguém. A maior vibração da sua vida, talvez. O maior alívio, certamente. Vibrando sozinho, na saída do túnel. Sem ninguém para acompanhar, a não ser um delegado da Fifa incrédulo. Suárez defendeu a bola, foi o segundo goleiro, classificou o Uruguai e escreveu sua página na história de todas as Copas do Mundo. Suárez poderia ser um atacante promissor do Ajax. Tornou-se uma lenda.

Uruguai x Gana, até agora, é o maior jogo da Copa, e talvez de todas as últimas quatro Copas. Não sei quantas, é difícil dizer, mas o fato é que eram dois times que, conscientes das suas limitações e da enorme vontade de fazer história, jogaram muito mais do que o enfado. Jogaram praticamente a chance de viver e a chance de escrever um nome no livro eterno da Fifa. Uruguai e Gana agradeciam por estar ali, quando entraram em campo, e lutaram pela história em cada segundo do jogo. Marcaram demais. Atacaram o tempo todo. Era lá e cá. Chutes a esmo, 200 escanteios uruguaios, chances e mais chances. Não parava a Jabulani, quase nunca.

O gol de Gana foi no final do primeiro tempo, merecido, foi um grande primeiro tempo. Mas o Uruguai voltou bem melhor no segundo, e com uma bola parada, uma falta de Forlán, conseguiu o gol. 1×1. Resultado justíssimo. Na prorrogação, dois times mortos continuavam tentando. Por que não se matam cavalos? Isner e Mahut. Tentavam, e tentavam, e tentavam, sem parar. 1×1. Prorrogação.

O cenário que foi descrito no primeiro parágrafo desse texto poderia resumir tudo o que foi essa Copa do Mundo, mas havia mais. Havia uma decisão por pênaltis. Gana jogando a África, Uruguai jogando a mística. Jogadores de segunda classe no contexto mundial, aquele contexto que escreve capas de revistas, de jogos de videogame, de filmes, de bandeiras, de banners de marcas de roupas esportivas. Nenhum deles estava em campo. Eram dois times. Não tão grandes no futebol, mas gigantes na vontade, e que fizeram do futebol um esporte ainda maior. Por que tentaram, e jamais desistiram.

Asamoah Gyan, que perdeu o pênalti, foi o primeiro a cobrar. E com macheza, marcou o gol. O Uruguai foi convertendo. Mas havia Fernando Muslera no gol, de amarelo. Que pegou o pênalti de Mensah, e ainda um outro. Para encerrar, Loco Abreu. Há milhares de maneiras de bater um pênalti decisivo. Loco Abreu resolveu dar uma cavadinha. 4-2.

Galeano vai escrever uma Bíblia sobre esse jogo. Mario Benedetti, estivesse vivo, escreveria uma antologia. Schiaffino e Obdulio sorriem. É a mística celeste de volta. No deboche de Loco Abreu. Na garra de Forlán. Na inteligência decisiva de Muslera.

E especialmente, na coragem de Luís Suárez.

Fosse eu Joseph Blatter, entregaria a taça no final desse jogo. Acabou a Copa.

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Uruguai: uma mística, uma história

Por Vicente Fonseca, do Carta na Manga

Não restava alternativa. Eram 15 minutos do segundo tempo da prorrogação quando Gana levantou a bola na área uruguaia. Depois de rebater uma vez em cima da linha, ela sobrou para Appiah, que cabeceou firme. Luis Suarez, postando à linha do gol, tinha duas alternativas: ou metia o rosto na bola – o que provavelmente a faria voltar para um ganês dar o golpe definitivo e, portanto, não servia – ou ia com a mão mesmo, rezava para que as pífias arbitragens da Copa não vissem mais um erro grosseiro, e daria à Celeste uma última chance de sobreviver rumo à dramaticidade de uma disputa de pênaltis. É fácil concluir que ele simplesmente não tinha escolha. Para salvar o Uruguai de uma eliminação no último lance da partida, só se interviesse com o único órgão de seu corpo que é proibido pela regra do futebol. Em nome da vida, fez o serviço sujo. E esperou o milagre.

Asamoah Gyan, artilheiro ganês que curiosamente joga com a camisa 3, de zagueiro, postou-se para a batida. Nada levava a crer que perderia: batera dois pênaltis já na Copa, convertendo ambos com cirúrgica precisão. Do outro lado, Fernando Muslera, solitário contra o centroavante adversário e a imensa maioria dos 84.017 torcedores presentes no Soccer City, que clamavam por uma classificação que orgulhasse o continente-sede deste Mundial. Gyan foi confiante, bateu forte, mas em vez de pesar seu instinto finalizador, pesou o número de sua camisa – a de zagueirão. Foi no abençoado travessão da goleira direita do Soccer City que o Uruguai se classificou às semifinais da Copa do Mundo de 2010, 40 anos depois. Nem precisava a decisão por pênaltis. Foi a primeira vez na história que, antes mesmo das batidas, uma equipe entrou vencedora, e a outra derrotada.

A classificação uruguaia premia a equipe que não apenas faz melhor campanha, mas jogou melhor hoje. O primeiro tempo foi dividido em dois. No começo, a Celeste tomou a iniciativa e criou chances de abrir o placar. Gana atuou como contra a Alemanha, mas só passou a encaixar contra-golpes na metade da etapa inicial, quando Prince Boateng (excelente jogador, embora se pareça muito com Wellington Paulista) começou a puxar seu time para o ataque, na base de imposição física e grande qualidade nas arrancadas. Quando o intervalo era ótimo negócio para os charruas, Muntari acertou um tirambaço curvo, que pegou Muslera fora do lugar. Levar o gol no último lance do jogo poderia ser o prenúncio de uma desgraça. Parecia.

O Uruguai voltou com a força que marcou sua história no segundo tempo. Mesmo sem o capitão Lugano (e o outro titular, Godín, que nem jogou), ganhava todas as divididas, foi para cima na base da raça e do peso de sua camisa. Mesmo com Cavani ainda destoando dos demais, o time levou sempre mais perigo. Forlán acertou uma falta lateral no melhor estilo dos romenos Dumitrescu e Gica Hagi, empatando o jogo. A tônica do jogo passou a ser uma Celeste tentando definir a partida nos 90 minutos, com Gana se segurando e freando o ritmo para ter fôlego numa possível prorrogação.

No tempo extra, já com Abreu no lugar de Cavani, a Celeste se viu na situação inversa: foi pressionada por Gana e tentava sair nos contra-golpes. Até que veio o lance descrito no primeiro parágrafo. O maior lance da Copa do Mundo. A jogada que poderia ter enterrado o Uruguai cruelmente, mas que o colocou nas semifinais.

Era previsível que a Celeste se daria melhor nos pênaltis, mesmo que seja uma disputa marcada pelo imponderável muitas vezes. Um time entrou na disputa completamente renascido; o outro, com a sensação de que deixara escapar a grande chance da vaga. Muslera teria sido o grande personagem da batalha final com suas defesas, mas Loco Abreu, com a cavadinha mirabolante que o caracteriza, é quem entra para a história.

Se bem que Muslera também, redimindo-se da falha no gol ganês com duas defesas. Pensando melhor, Fucile, que ganhou simplesmente todas as disputas, merece as reverências. Ou Diego Pérez, leão do meio-campo, melhor guardião de defesas desta Copa. Ah, mas como esquecer de Forlán, o maestro, um dos craques da Copa, o autor do golaço, de mais um chutaço que calou o estádio, como na goleada sobre a África do Sul? E Maxi Pereira, incansável. E Lugano, o capitão que deixou a partida em favor de Scotti. E Suarez, claro.

O Uruguai chega onde quase ninguém imaginava. E acho que ninguém mais duvida que consiga ir até mais longe. Mesmo contra a grande Holanda, mesmo sem Suarez, talvez sem a zaga titular. De um time que calou duas vezes os estádios cheios da África nesta Copa, como sua melhor tradição pede, convém não duvidar.

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