Por Vicente Fonseca, do Carta na Manga
Seguramente, a Alemanha nunca jogou tanto em toda sua imensa história de Copas do Mundo. Seguramente, nunca vi um time que jogasse tanto quanto esta Alemanha nos 20 anos em que acompanho futebol. Tente puxar pela memória: qual outra seleção na história das Copas conseguiu golear dois campeões do mundo numa mesma edição do torneio? Nenhum. Nem o Brasil, com Pelé e Garrincha, conseguiu isso. Só esta Alemanha.
Se desde a primeira rodada a equipe treinada por Joachim Löw vem dando pinta de que alcançará o tetracampeonato, é fato que o time cresce a cada jogo de mata-matas que disputa. E a passos largos, imensos. Simplificar a Alemanha como um time que se fecha bem e sai em contra-ataques perigosos é um erro grosseiro. Excetuando a lateral-esquerda, onde Boateng é apenas cumpridor, os alemães têm grandes jogadores em todas as posições. Não bastasse isso, Löw faz um excelente trabalho, organizando a equipe de modo tão perfeito que estas ótimas individualidades se sobressaiam ainda mais. Aí, fica difícil segurar.
Se a Inglaterra sucumbiu, a Argentina também não foi páreo. Ambas as eliminadas chegaram a jogar melhor que a Alemanha em parte das partidas, grandes times que são. Mas hoje ficou evidente a superioridade técnica (que eu desconfiava há horas) e tática da Alemanha sobre os hermanos. O time platino sempre foi bagunçado, a Copa inteira, mas tem jogadores excepcionais que podiam, num dia inspirado, fazer a diferença. Tem apenas um marcador no meio, Mascherano, que joga extremamente sobrecarregado. Não bastasse isso, a zaga sempre deu mostras de que iria vazar. Otamendi não tem condições de envergar a gloriosa camisa bicampeã do mundo. No meio, a linha alemã tomou conta do setor e impediu Di Maria e Maxi Rodríguez de participarem do jogo no primeiro tempo. Messi era obrigado a recuar muito para buscar jogo, o que lhe retirava poderio ofensivo.
A Alemanha abriu o placar logo de cara, mas faltou o contra-golpe na etapa inicial. Teve a iniciativa nos 20 minutos iniciais, mas os argentinos vieram para cima no ânimo e na qualidade individual de seus jogadores de frente, um resumo da Era Maradona no comando do selecionado. O encaixe do contra-golpe alemão, porém, era falho. Ainda que Müller fosse espetacular como de costume, Özil não jogava tudo o que sabia. Imagina se jogasse.
No segundo tempo, Di Maria e Maxi Rodríguez entraram no jogo, mas a segurança da retaguarda alemã era impressionante. A Argentina não fazia má partida, foi para cima, mas mostrava mais brios que organização. Porém, em vez do tão cantado contra-ataque, foi no toque de bola envolvente da Divisão Panzer que Klose ficou sozinho na linha do gol para ampliar. Dali em diante, ficou evidente o abismo tático que há entre os dois times. Foi um show, que terminou em 4, e poderia ter sido ainda maior.
Messi decepcionou por não ter marcado gols ou feito a diferença no primeiro jogo difícil de seu time, mas está longe de ter feito uma Copa ruim. Jogou mais que a maioria dos jogadores festejados (Kaká, Cristiano Ronaldo, Rooney) antes do Mundial. Mas ainda precisa provar que pode mais com a camisa albiceleste. Terá mais duas ou três Copas para isso, tempo suficiente para se recuperar do fiasco de hoje. Seu fracasso não deixa de ser também o de Maradona, que o protegeu sempre, como qualquer técnico, aliás, faria. Mas o fato é que a Argentina tem jogadores não superiores aos da Alemanha, e é inferior taticamente. Por isso sempre apostei na vitória germânica neste duelo. Os germânicos têm um grande técnico; os argentinos, um motivador.
Müller, que levou segundo cartão amarelo, fará falta na semifinal. Aos 20 anos, provou de novo ser um craque, um jogador decisivo. Fez um gol de oportunismo, sempre foi perigoso, criou no chão a jogada do segundo gol, que decidiu o jogo. A dupla de volantes Khedira e Schweinsteiger, que tão desconfiada chegou à África do Sul, é de longe a melhor da Copa. O primeiro desarma bem e não erra um passe. O segundo está entrando para a história como um dos grandes craques de sua seleção em todos os tempos, aqueles que trocaram de posição e seguiram jogando o fino (Beckenbauer, Matthäus e Sammer, notadamente): de meia-quase-ponta, virou um volante que marca, se desprende, dribla, lança, chuta a gol e dá ritmo ao time. Fez uma jogada sensacional no terceiro gol, o de Friedrich, destruindo a defesa argentina a dribles curtos e verticais. Friedrich, aliás, forma zaga muito segura e séria com Mertesacker. E se o discreto Boateng está de um lado, o excelente Lahm está do outro. Mais uma partida impecável.
A dupla de ataque, longe de ser brilhante, é decisiva – o que importa mais do que o brilho, muito mais. Podolski e Klose formam um daqueles “casais 20” de Mundiais. O centroavante já se iguala a Gerd Müller e está a dois gols de superar Ronaldo. Mais um recorde que esta inesquecível Alemanha pode quebrar.
A Alemanha pode até não ganhar a Copa, isto é do jogo. Mas hoje provou mais uma vez que é o melhor time, o mais preparado para vencê-la. Está um passo à frente da Holanda, a outra favorita. E fico muito feliz que um país que foi apressadamente dado como decadente para o futebol há cerca de 10 anos consiga formar um time deste nível. Claro, nem mesmo eles esperavam jogar tanto assim. Mas, incrivelmente, muitos ainda desdenham dos germânicos sempre antes de uma Copa do Mundo começar. E, em 2010, nem está sendo preciso invocar a história do futebol alemão para pedir o respeito que eles merecem.